Tebas: “A Superliga não está morta, há conceitos iguais que diminuem o valor das ligas nacionais”.

– Conheces o projeto FutbolJobs e o que pensas dele?
Sim, eu conheço-a. É uma plataforma que liga o talento às oportunidades no futebol, com uma bolsa de emprego global. Oferece capilaridade: desde jogadores a analistas, preparadores físicos ou perfis de comunicação. Vocês próprios falam de mais de 200.000 utilizadores registados e mais de 150.000 ofertas publicadas, com milhares de colocações, o que dá uma ideia da vossa tração no sector. Parece-me uma iniciativa útil para profissionalizar e organizar a empregabilidade no ecossistema.
– Que novas ideias tem a LALIGA para competir em termos de receitas com a Premier League?
A primeira coisa a fazer é compreender que estamos a falar de dois contextos de mercado muito diferentes. O Reino Unido tem uma população com um rendimento per capita mais elevado, uma tradição consolidada de consumo desportivo pago e uma vantagem cultural e linguística que facilitou a sua internacionalização durante décadas. A Espanha, por outro lado, desenvolveu o seu modelo num ambiente diferente, com uma cultura audiovisual mais ligada ao livre acesso e um ponto de partida económico diferente. Ainda assim, a LALIGA tem vindo a trabalhar há anos de forma sustentada e sustentável para reduzir esta diferença estrutural. Não é algo improvisado, mas o resultado de uma estratégia de longo prazo que começa a dar frutos. Hoje temos uma das maiores comunidades do desporto mundial, com mais de 258 milhões de seguidores nas redes sociais, e uma presença internacional direta em 35 países, o que reflecte um crescimento real e constante. A nossa resposta ao desafio é global, a 360 graus. Em primeiro lugar, impulsionámos definitivamente a modernização dos clubes através do nosso acordo com a CVC, que nos permitiu acelerar os projectos de estádios, cidades desportivas, bilhética e negócios comerciais, melhorando a experiência dos adeptos e a sustentabilidade futura. Em segundo lugar, a tecnologia e os dados são um foco fundamental. Através da Sportian (anteriormente LALIGA Tech), desenvolvemos soluções proprietárias para a identificação de adeptos, CRM, anti-fraude e verticais B2B que não só reforçam o nosso ecossistema digital, como também geram novas linhas de negócio. O terceiro pilar é continuar a oferecer um produto audiovisual competitivo, protegendo o valor ao vivo com mais produção, melhor distribuição internacional e um firme compromisso contra a pirataria. E, claro, os êxitos desportivos e o crescimento dos clubes espanhóis são uma parte fundamental: quando os nossos clubes crescem, toda a concorrência cresce. Em suma, competimos não só em termos de receitas, mas também de visão. Estamos a construir um modelo de crescimento sustentável, apoiado na inovação, na profissionalização e na expansão global, que consolida a LALIGA como uma das principais ligas do mundo.
– Que medidas tomou a LALIGA na luta contra a pirataria?
A LALIGA fez progressos significativos na luta contra a pirataria audiovisual, reduzindo a pirataria em Espanha em 60% na última época. Este resultado foi alcançado graças a três eixos fundamentais: primeiro, o quadro jurídico, tecnológico e operacional, que permitiu a implementação de bloqueios de IP dinâmicos, selectivos e proporcionais durante os dias de jogo para impedir o acesso a emissões ilegais em tempo real; segundo, a tecnologia proprietária de deteção e remoção, com ferramentas como o Content Protection e o Piracy Guard, capazes de identificar e remover conteúdos piratas de forma automática e praticamente instantânea; e terceiro: O trabalho institucional com actores tão diversos como reguladores, emissoras, intermediários tecnológicos e outros organismos internacionais para garantir que as acções de combate à pirataria são cada vez mais abrangentes e eficazes em todas as áreas a nível internacional. Isto resultou, por exemplo, em operações policiais bem sucedidas ou em avanços na jurisprudência. A pirataria continua a ser um grande desafio: todos os anos, custa à LALIGA e à indústria entre 600 e 700 milhões de euros em receitas que não chegam aos clubes ou ao desporto. É por isso que, embora os progressos realizados em Espanha sejam uma história de sucesso reconhecida internacionalmente, continuamos a trabalhar arduamente a nível global, colaborando com as autoridades, as ligas e as plataformas para reforçar a proteção dos direitos audiovisuais em todos os mercados.
– O jogo de Miami – será tentado novamente no próximo ano?
A nossa vocação internacional é inequívoca, e este é um projeto em que continuaremos a apostar. É impressionante ver como a celebração de um jogo da NFL em Espanha foi recebida com entusiasmo pela opinião pública e pelos meios de comunicação social, pois foi entendida como uma estratégia de expansão bem sucedida e bem sucedida. Devemos reivindicar com a mesma convicção uma iniciativa semelhante quando se trata de uma competição nacional como a LALIGA, que também procura projetar o seu crescimento e reforçar a sua marca a nível mundial.
– Disseste que o jogo de Miami nem sequer estava no top 10 dos alvos. Quais são alguns desses alvos LALIGA?
Temos um grande desafio de governação; na verdade, é o mais importante que enfrentamos. O surgimento de novas competições e formatos internacionais, ignorando o impacto real nas ligas nacionais, pode levar a um declínio a médio prazo, uma vez que implica o risco de um maior fosso entre os clubes com mais recursos económicos e os restantes, pondo em perigo o principal ativo de qualquer liga: a sua competitividade. Reduzir a diferença de receitas internacionais, aumentando o impacto da LALIGA fora de Espanha através de uma maior presença, melhores acordos de direitos audiovisuais e acções comerciais que permitam aos clubes participar mais ativamente nos mercados emergentes. Além disso, continuar a promover o desenvolvimento dos clubes já iniciado com o acordo com a CVC. Continuamos a trabalhar na transformação do modelo de negócio tradicional para um mais digital, experiencial, ligado aos adeptos e diversificado para além do mero jogo. Tolerância zero para a pirataria audiovisual, como parte central da proteção do ecossistema: garantir que os direitos que geram valor chegam aos seus legítimos proprietários e que a concorrência não perde com a circulação ilegal de conteúdos. Prosseguiremos também a digitalização dos clubes e da indústria do futebol, tirando partido dos dados, das plataformas, da interação direta com os adeptos e dos novos canais para enriquecer o produto e torná-lo mais atrativo a nível mundial. Por último, melhorar a qualidade do produto em todas as frentes: competitividade desportiva, experiência dos adeptos dentro e fora do estádio, modelos de governação, regulamentação, calendário, integridade e sustentabilidade económica. Para fazer da LALIGA e dos seus clubes uma referência internacional. Continuaremos também a luta contra o ódio, a discriminação e a violência no futebol. No âmbito da plataforma LALIGA VS, implementámos campanhas de sensibilização, ferramentas de denúncia nos estádios e nas redes, e colaborámos com instituições para erradicar o racismo, a xenofobia, o bullying e os comportamentos intolerantes.
– Com a presença de Joan Laporta na reunião do CEF, será que ele considera que a Superliga está enterrada?
A Superliga não é um projeto morto, existem conceitos iguais ou semelhantes. O novo formato das competições europeias é um caminho que conduz a uma Superliga Europeia, e não é a única ameaça ao modelo do futebol europeu. Hoje existem outros riscos que põem em causa a sustentabilidade das ligas nacionais: novas competições promovidas unilateralmente pela FIFA, a proliferação de formatos que saturam o calendário, ou tentativas de desvalorização e competitividade dos campeonatos nacionais. A partir da LALIGA continuaremos a defender o modelo europeu baseado na meritocracia desportiva, na estabilidade económica e na proteção das ligas, que são a base do ecossistema futebolístico mundial.
-Como é a tua relação com a Federação após a saída de Rubiales e a presidência de Louzán?
A relação com a RFEF é institucional e construtiva. Após a chegada de Louzán, foi reforçada uma dinâmica de diálogo permanente que nos permite abordar as questões fundamentais do futebol espanhol com uma visão partilhada. Existe uma agenda comum em questões estratégicas como a melhoria da arbitragem, a coordenação do calendário competitivo e o trabalho conjunto para o Campeonato do Mundo de 2030, onde o sucesso de todos é uma prioridade. Dito isto, mantemos uma posição firme na defesa das nossas competências e do papel da LALIGA no ecossistema do futebol. A colaboração não significa renunciar à independência ou à responsabilidade de representar os interesses dos clubes. Em suma, é uma relação madura, com canais de comunicação abertos e um objetivo comum: fortalecer o futebol espanhol dentro e fora do campo.
– Achas que a final do Campeonato do Mundo de 2030 será finalmente disputada em Espanha?
A FIFA ainda não atribuiu o local da final. Espanha, Portugal e Marrocos são co-anfitriões. Vamos fazer pressão para que a Espanha acolha o número máximo de jogos, pois não pode ser de outra forma.
-O que farias com as ligas 1RFEF, 2RFEF e 3RFEF?
São concursos da RFEF. A partir de LALIGA propomos uma cooperação técnica: produção audiovisual normalizada, calendário coordenado e programas de sustentabilidade económica.
– Vês-te a ti próprio como presidente da LALIGA por muitos mais anos?
É uma decisão dos clubes. Em todo o caso, não se trata de desafios no futuro imediato. Os desafios que temos pela frente são inegáveis e, enquanto os clubes continuarem a pensar em mim para liderar o papel da LALIGA, sinto uma forte responsabilidade em resolver o que temos em cima da mesa.